Cecilia Kerche – A lágrima de Tchaikovsky no movimento
 Wellen de Barros, cantora lírica do Theatro Municipal do RJ
A temporada do ballet “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky contou com a experiência e sensibilidade da bailarina e coreógrafa russa – Yelena Pankova d’après Marius Petipa e Lev Ivanov.
Numa proposta mais etérea, onde a metamorfose do compositor da obra no personagem de Odette/cisne, busca a força representativa do corpo de baile durante todo tempo, culminando no imaginário coletivo a que se propõe Tchaikovsky na figura de Odyle.

Uma estreia memorável, seguindo a tradição dos grandes teatros internacionais, principalmente na delicadeza e sensibilidade de seus idealizadores, ao homenagear três personalidades do ballet brasileiro e internacional: Aldo Loutufo, Bertha Rosanova e Cecília Kerche.

Um bonito programa de homenagem distribuído logo na entrada do Teatro, oferecendo ao público uma rara oportunidade de testemunhar o reconhecimento de um trabalho digno e que dá muito orgulho aos brasileiros.

Uma plateia feliz, artistas que vieram prestigiar, recordar, abraçar seus amigos artistas do palco e mais o público anônimo fiel, verdadeiro responsável pelo reconhecimento de seus ídolos.

Um elenco de solistas e corpo de baile, fazendo eco a seus colegas homenageados.

Marcelo Misailidis que, na interpretação carismática do feiticeiro Von Rothbart, é o manifesto claro e ao mesmo tempo simbólico do poder manipulador. Uma presença de admiração e hostilidade.

Rodrigo Negri, num virtuosismo cômico e solitário do seu personagem, é a imagem nítida do “bobo” da Corte, muito atual.

Com a dignidade de um lord, Vítor Luiz na sua interpretação ilumina o destino de Siegfried, seu personagem – um jovem fragilizado pela imponência de uma família aristocrática. É um talento clássico, natural a um primeiro bailarino, com movimentos precisos e a suaves no acabamento da sabedoria dos deuses…

Uma nobreza límpida trazida extra palco, que auxilia seu personagem no encontro da maturidade interior. Esta maturidade de sentimentos de Vítor Luiz, resulta na audácia da entrega ao seu personagem, numa sinceridade tardia, porém remediável a seu arrependimento, para encontrar a verdadeira felicidade, ultrapassando a morte.

Simplicidade, beleza, talento e determinação, alguns atributos indispensáveis à carreira de um verdadeiro “príncipe” guiado pela corte celeste.

Para celebrar uma noite de homenagem, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ninguém melhor do que o mestre romântico Tchaikovsky para, com sua sensível genialidade, decodificar a alma humana, nos fazer refletir, sonhar, emocionar e nos transformar.

O Theatro, para tanto, conta com a presença de sua diva maior – Cecília Kerche, considerada melhor intérprete de Odette/Odyle nas últimas décadas. Compositor e intérprete se complementam num mundo pessoal e coletivo, transfiguram a própria divindade.

Era muito comum na época de Tchaikovsky haver uma espécie de parceria entre compositor e coreógrafo. Aqui, porém, estabeleceu-se mais do que uma parceria entre compositor e bailarina. Firmou-se uma identidade intransponível.

A performance de Cecília Kerche, ao interpretar as personagens Odette/Odyle, faz brotar nos olhos do espectador a lágrima de Tchaikovsky através da sua emoção.

É a liberdade interior do ser humano. Cecília Kerche que conduz uma espécie de autorrevelação do compositor, compreendida de forma natural pelo público, que presencia esse diálogo, tão particular: A dor conflituosa do aprisionamento humano pessoal, de Tchaikovsky e a emoção de Cecília.

O lirismo da sua personagem Odette, lindamente descrita por um belo fraseado musical visível através de seus movimentos, faz-nos entender a plumagem da ave incorporada a uma tristeza secreta de sua alma de cisne.

É a metáfora do ser humano solitário cercado de angústia e medo.

Essa mesma liberdade interior da intérprete capta o universo imaginário coletivo que Tchaikovsky expõe sobre poder e manipulação, onde sedução e arrogância dão lugar a egoísmo e arrependimento.

Na personalidade de Odyle compreende-se o arquétipo de dualidade existente no ser humano. A sensibilidade da artista/bailarina surpreende com a clareza formal e inquietante do simbolismo psicológico, que é narrado através do virtuosismo de máxima intensidade expressiva por sua dramaticidade.

Assistimos a um diálogo entre almas, num profundo entendimento da busca de sentido entre liberdade interior e aprisionamento humano. Metamorfose pessoal em poesia musical, narrada em grau de excelência na arte de Cecília Kerche – a lágrima de Tchaikovsky no movimento.
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